quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Capítulo 4 - Antes de Partir

Jasmine’s POV
Acordei acabada. Completamente escabelada e mal conseguindo abrir os olhos. Que preguiça... “Ainda bem que hoje é sábado”, pensei comigo mesma. Bocejei e me espreguicei. Esfreguei os olhos e me encaminhei até o banheiro para lavar o rosto e escovar os dentes. Tudo bem que é sábado, mas eu preciso resolver umas coisinhas. Depois de colocar uma “roupa de ficar em casa”, desci até a cozinha e percebi que só o meu pai estava lá. E ele parecia bem perturbado.
- O que houve, papai?- perguntei, curiosa para saber o que incomodava ele nessa hora da manhã.
- Sua mãe, Jasmine. Desde que acordou ela não para de reclamar da sua dor de cabeça- enquanto ele falava, percebi que estava fazendo chá.
- Quer uma ajudinha?
- Não precisa. Já estou quase terminando. Mas mamãe te chamou lá em cima. Disse que precisa falar com você.
- Okay, vou subir então. Qualquer coisa é só chamar, pai. – e beijei seu rosto barbudo.
Subi as escadas correndo e ansiosa para ver minha mãe e saber o que ela queria falar comigo. Abri a porta devagar e enxerguei mamãe deitada na cama. Provavelmente ela não conseguia nem levantar. Como alguém consegue ficar tão mal assim, de repente, sem um aviso prévio?
- O pai me falou que você queria falar comigo. – sentei na beirada da cama ao lado de mamãe e encostei minha mãe na sua testa que estava molhada de suor e quente. Foi aí que eu percebi que a situação dela era bem pior do que eu pensava. – Mas antes, mamãe, me fale exatamente o que você sente.
- É uma dor de cabeça tão forte que eu não consigo falar por muito tempo. Então vou ser rápida. – sua voz já não parecia a mesma. Estava mais fraca do que normalmente e um pouco rouca também. Decidi não contar meus problemas pra ela. Um daquele tamanho já é o suficiente para conseguir suportar. – Eu sei que seu namorado – correção mental: ex-namorado – a proíbe de participar daquele show de talentos, mas eu preciso que você vá. Vá em busca dos seus sonhos, minha pequena Jas. Não cometa o mesmo erro que eu cometi no passado.
- Mas... Olhe o seu estado. Não posso te abandonar enquanto está assim. Eu quero cuidar de você assim como você sempre cuidou de mim.
- Eu sei, minha filha. Mas eu tenho seu pai e não há nada que você possa fazer... A não ser ir em busca de seus sonhos e me dar o prazer de ver, antes de partir, você conseguindo tudo que sempre desejou. Cantar. – simplesmente não consegui aguentar. Uma lágrima escapou assim que ela falou “antes de partir”. Será que essa doença era tão grave assim? Era câncer mesmo? Não, não, não, não, NÃO. Afugentei rapidamente esses pensamentos e me concentrei no presente.
- Eu não vou suportar te deixar aqui sabendo que está tão doente...
- Vai, sim. Eu te dou todo meu apoio. Nós ligaremos todos os dias, minha filha. Se não ligarmos, você liga. Será como se estivéssemos realmente juntas. – nesse momento eu a abracei forte, não me importando com mais nada. Encostei meu rosto já coberto de lágrimas no seu e falei ao pé do ouvido dela:
- Eu te amo. Muito. Do fundo infinito do meu coração. Não quero que nada de mal te aconteça. Eu estarei contigo, mesmo longe. Eu prometo.
- Sim, Jas. Sim. E se algo acontecer, saiba que eu sempre estarei aqui – falou, apontando para o lado esquerdo do meu peito. O meu coração. Ai, meu bom Deus. Eu amava tanto a minha mãe. Será possível que esse universo é tão injusto? Por que parece que só os bons passam por sofrimentos, perdas e decepções? Nesse momento, papai chegou e colocou a xícara com o chá na mesinha ao lado da cama e se juntou ao abraço. E eu me toquei que, não importa o que aconteça, a família sempre permanece no nosso coração.
John’s POV
Acordei sem saber que horas eram, onde eu estava e, muito menos com quem eu estava. Só sabia que estava tonto e com uma terrível dor de cabeça. De ressaca. Comecei a lembrar de algumas cenas bem pervertidas de ontem à noite. Eu na cama, com duas mulheres... Elas só de calcinha e sutiã. E de repente elas vieram pra cima de mim, lambendo meu pescoço e tirando a minha roupa. Olhei para o lado e reparei que as duas mulheres da minha lembrança estavam do meu lado. “Puta merda, John? Você ficou bêbado e contratou prostitutas de novo?” Pensei comigo mesmo. É claro. Foi exatamente isto que aconteceu.
Tentei algo impossível e que eu sabia que daria errado no final. Escapar do meio daquelas duas sem acordá-las. Nem lembrava se tinha pagado elas. Me mexi do modo mais “câmera lenta” possível e, por incrível que pareça, consegui sair dali sem que elas percebessem. Me virei para colocar a roupa e de repente alguém me puxou de volta para cama. “Porra”.
- Vai saindo sem pagar, mocinho? – falou com aquela voz de vadia.
- Ah, sim. Me esqueci. Só um momentinho. – puxei uma nota de 50 euros e coloquei na mão dela.
- Ãhn? Só isso?
- Sim, é só isso que tenho. Se quiserem dividir... Façam o que bem entenderem. – e aproveitei que já estava de roupa para sair correndo daquele motelzinho barato.
Quando cheguei na rua, me dei conta que hoje era sábado. E também que sábado de manhã era dia de trabalhar. Eu tinha um emprego em uma corretora, com horários complicados. Consegui encontrar minha caminhonete Toyota preta entrei no carro para dirigir até o trabalho. A minha sorte era que o trânsito não estava tão conturbado. Cheguei lá e dei a mesma desculpa pela milésima vez:
- O trânsito estava uma loucura. – Ao acabar de falar, meu chefe gordo e rabugento parou na minha frente e disse com aquela voz irritantemente irônica:
- Sei, sei. O trânsito sempre está uma loucura, não é, John? Não acredito mais nas suas palavras. Você sempre chega atrasado. Isso quando não falta o serviço. Você acha que eu não sei que anda bebendo e não vai trabalhar por causa da ressaca? Não vou mais perder o meu tempo com pessoas irresponsáveis como você. Está DEMITIDO, John.
- Mas, senhor... – Quem tinha contado aquilo pra ele? Como poderia saber?
- Não tem mais. Cansei de aturar atrasos. Pegue suas coisas e vá embora. E vou rezar para não ter mais que olhar nessa sua cara de pau. – Argh, que cara idiota. Aproveite que ele não era mais meu chefe e desabafei:
- E eu agradeço para não ter mais que olhar essa sua barriga gorda de papai Noel e essa sua cara de buldogue. – o deixei ali, sem reação e fui pegar as minhas coisas. Saí daquela agência com muita raiva e pensando no que iria fazer daqui pra frente. Aquele emprego era a única coisa que sustentava a minha faculdade e minhas festinhas. Acho que está na hora de dar um basta.
Jasmine’s POV
Depois de refletir por muito tempo nas palavras da minha mãe e no seu desejo compreensível de querer me ver cantando, cheguei a uma decisão. Eu entendia completamente o desejo de mamãe, já que quando ela tinha a minha idade, não conseguiu realizar seu maior sonho por um garoto besta que depois a traiu. Tô falando, nenhuma pessoa do sexo oposto presta. E cada vez mais eu confirmo essa teoria.

E decidi me inscrever no famoso The X-Factor pra ver no que dava. Talvez eu nem fosse aceita. Mas uma parte minha queria muito, muito mesmo, ser chamada... Passamos o resto daquele dia curtindo em família. Vimos alguns filmes, rimos e choramos, contamos histórias. É tão bom passar momentos assim. Sem se preocupar com nada. Mas no fundo eu estava com um peso no coração. Preocupada com mamãe e ansiosa pela resposta do reality show. Já não me sentia mais triste por ter terminado um namoro com um mentiroso do qual eu nem me lembro mais o nome. “É, Jas, está na hora de mudanças radicais na sua vida”. 

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